No terceiro capítulo de suas histórias no Boteco, o ex-lateral do Mogi Mirim, Henrique Stort, aborda o tema drogas no futebol e conta episódios relacionadas ao assunto.
Boteco – Você viu muitos casos de drogas no futebol?
Stort – Muitos. Em 84, eu estava concentrado, concentração era em frente o Saae, eram beliches e o jogador em cima de mim começou a fumar maconha. Eu falei: “para”. Ele: Henrique, é difícil parar, eu tô acostumado esse horário a fumar. Eu pensei: o que vou fazer? Era meia-noite, uma da manhã. Só tive uma solução: eu morava em frente o Posto Futurama, pertinho, já era casado. Fui dormir em casa.
Boteco – Aí avisou o pessoal?
Stort – Não avisei ninguém, aí chegou o Tuta Orsi, supervisor, de manhã, ele soube que eu tinha ido embora, tinha guarda. Ele chegou: por que você foi dormir na sua casa? Eu falei que eu me senti mal, uma dor de estômago forte e preferi dormir lá. E ficou por isso mesmo.
Boteco – E casos de drogas com objetivo de se dopar?
Stort – No Mogi eu vi isso. Tinha um jogador em 81 que trazia, a droga da época, Glucoenergan, hoje é proibida. Muitos usavam e hoje tem muito jogador com hepatite, porque a Gluco era dada numa fila de jogadores com a mesma agulha.
Boteco – Mas era obrigado pelo clube?
Stort – Não, levavam escondido. Mas você acha que o massagista não ia estar conivente? O jogador corria mais.
Boteco – Quando você marcava um jogador, você sabia que ele tinha tomado?
Stort – Ficava um branquinho na boca. Inclusive tinha jogador que tomava nos treinos, viciou. Em 76 ou 77, eu estava no Rio Branco de Americana, que era Americana, eu, Toninho Bellini. E eu vi um aspecto da Gluco, o volante, vou me privar do nome, ele tomou o Gluco de manhã, uma antes do almoço, era bem viciado, e tomou uma antes do jogo. Ele quase infartou, três Glucos. Ambulância pegou ele, ele tremia. Ele quase infartou, literalmente. E não jogou. Em 81, no Mogi, tinha um jogador que trazia Gluco do Rio de Janeiro e vendia pros outros.
Boteco – E um provocava o outro, que tinha usado, em jogos?
Stort – Não, o adversário também tomava, era uma coisa só.
Boteco – Chegaram a oferecer para você?
Stort – Oh, eu vi muita Gluco.
Boteco – E sempre teve cabeça para não aceitar?
Stort – Nunca. Meu irmão, meu pai, me ensinaram uns caminhos e eu segui, eu soube trilhar esses caminhos sem droga e sem cigarro por causa dos exemplos que tive. E vou falar a coisa mais importante agora: o jogador, por ser um exemplo para sociedade e mais exemplo ainda para os garotos, tem obrigação de dar exemplo, socialmente falando, de mostrar o caminho.
Boteco – Você queria deixar uma mensagem sobre drogas?
Stort – Vou deixar uma mensagem muito importante pela minha vivência não só como atleta, mas como dirigente, uma mensagem para os que estão começando a carreira. O destino não é uma questão de sorte, é de escolha. Não é algo pelo que se espera, mas algo a alcançar. O esporte tem uma magia impressionante para fascinar, as drogas sempre trazem consequências sérias aos adolescentes, famílias e sociedade. A mensagem que eu deixo aos jovens é diga não às drogas. Mude seu pensamento e você mudará seu mundo.
Boteco – Stort volta, no último capítulo de seu bate-papo, para abordar curiosidades sobre o histórico esquadrão do Mogi Mirim de 1970.