A trajetória de uma família daria vários livros cheios de histórias. Se observar um pouquinho, escrevemos capítulos diariamente, graças a uma convivência que é ao mesmo tempo dinâmica e cíclica e isso acontece tanto no emocional quanto no físico.
Não sei se já falei por aqui, mas eu vendo carro. Cada cliente que nos procura está em um momento da vida e, consequentemente, tem um tipo de necessidade. Normalmente, começou a dirigir, quer um carro pequeno e econômico. Está um pouco mais estável financeiramente, busca um motor um pouco mais potente com opcionais de conforto como direção hidráulica e ar condicionado. Casou, engravidou: partiu carro sedan.
Quando os filhos são pequenos, precisamos de muito espaço no porta malas para acomodar carrinho, banheira, malas e mais malas. Depois dos três anos, já fica mais fácil porque basicamente comem o que a gente come, já usam banheiro e o espaço fica só para levar um brinquedo ou outro. Podemos então voltar a escolher um modelo por afinidade e não somente por utilidade. Por pouco tempo, claro, até que a prole comece a namorar… Aí partiu sete lugares para caber a galera e não precisar separar ninguém ou fazer duas viagens.
Aproveitando o assunto, esses dias aconteceu uma coisa bem engraçada. Atendi um cliente que procurava por um carro desses não por agregados, mas para que os filhos pudessem ficar bem espaçados e não brigar. Eu achei que isso só acontecia lá em casa. Aquela coisa de um sempre achar que o outro está mais espaçoso, de implicar se qualquer parte do corpo encostar no irmão ou ainda tomar toda a água e deixar o outro sem.
E, falando lá de casa, o tamanho das pernas tem impactado nas viagens e, como sou a menor, ganhei o banco de trás e tem sido uma experiência enriquecedora poder observar a vida por outro ângulo.
Eu suspiro quando os vejo conversando. É como se cada um que ocupa aquele banco da frente desse um tom diferente à viagem com os assuntos que aborda, a maneira que prepara o troco no pedágio e a música que escolhe. Sinto como se, naquele momento, eles estivessem no controle da vida. Deixo o lugar de condutora para o lugar de companhia, como se emprestasse outros olhos para ver a vida. Tudo isso dentro de um simples carro!