No último capítulo de suas histórias, o ex-zagueiro Zé Márcio recorda um episódio e a oportunidade, no Amparo, de jogar ao lado e ser treinado por Rinaldo, ex-jogador da Academia do Palmeiras e com passagem pela seleção.
Boteco – Muitas histórias curiosas com técnicos?
Zé Márcio – No Amparo, contrataram o Rinaldo, um ponta-esquerda do Palmeiras, que foi da seleção brasileira, bom de bola, só que malandro. E eu morava no mesmo hotel que ele. Aí indo pro hotel: “oh, gostei daquele becão, rapaz”. “Qual, o Gerson?”. “Não, aquele grandão, o beque central. M[arcio, né?”. “Isso, Márcio”. “Gostei, do Gerson também, do volante, mas gostei do beque central, viu?”. Eu pensei: esse cara tá tirando sarro da minha cara. Mas vou ficar na minha. Era o primeiro treino, ele não tava me reconhecendo. No outro dia, fomos treinar: “você que é o beque central?”. “É”. “Não foi você que me levou de carro?”. “Foi”. “E eu elogiando você, você não falou nada?”. “Eu não sei se você tá falando sério”. Todo mundo deu risada. E ele jogava também, foi craque. Contra o Orlândia, ele cruzou, eu fiz de cabeça. Aquela festa. No hotel, ele: “esqueci, empresta o carro, já volto, só vou pegar não sei o quê”. Dei a chave, voltou terça-feira depois do almoço. Era domingo.
Boteco – Ia ter treino? Sumiu?
Zé Márcio – Sumiu. O treino ia ser só terça. Pensei: “será possível, esse cara não ia…”. Eu ia vim para Mogi, porque segunda era folga. Não tinha celular, essas coisas, a gente não conhecia direito ele. Será que aconteceu alguma coisa com o carro? Meia-noite e nada. Vou dormir, seja o que Deus quiser. Segunda-feira, nada. Fui falar com o presidente. “O homem sumiu com meu carro”. “Ih, falaram que a única coisa que não pode emprestar pra ele é carro, que o homem some”. “Tá brincando comigo”. “Não, verdade”. “Mas é o Rinaldo, jogou no Palmeiras, na seleção brasileira”. “É esse mesmo”.
Boteco – Ele não tinha carro?
Zé Márcio – Não, perdia tudo no baralho e com mulher. Terça-feira, depois do almoço, chega o Rinaldo no treino. “Eh, garotada, tudo bom?”. E eu olhando pra ele, bravo. “Oh, Zé, tive uns problemas, depois eu te conto”. Pôs a chave na minha mão. “Vamos treinar”. Eu pensei: não é possível estar fazendo isso comigo (risos). Pensei: acaba o treino, ele vai pedir para eu levar ele ao hotel. Ele sempre voltava comigo. Acabou o treino, troquei de roupa, cadê o homem? Já tinha sumido. Ele ficou uns quatro dias sem conversar comigo.
Boteco – Tava todo mundo sabendo?
Zé Márcio – Eu contei, né? “Ele vai pedir de novo”. “Mas se pedir, eu não empresto mais”. “Ele tira você do time”. “Pode tirar eu da onde ele quiser, mas nunca mais”. Eu tinha um xodó com meu carro. Mas voltou normal, sujo, mas normal. Aí teve uma quinta ou sexta-feira, acabou o treino: “Zé, vamos ficar batendo pênalti”. Chamou o goleiro, ficamos eu, ele e o goleiro. Aí, ele falou pro goleiro: “pode ir, eu vou ficar com o Zé, vou cruzar umas bolas para ele”.
Boteco – Mas não era comum acontecer isso?
Zé Márcio – Nunca. Ele falou: “eu disfarcei, você percebeu, né?”. “Eu percebi, a semana inteira, né?”. “Então, eu não tenho nem o que falar, saí com duas meninas dos tempos meus de Palmeiras e fomos para uma chácara, eu não sabia nem onde eu tava, fiquei três dias perdido, me desculpe”. “Pelo menos enche o tanque, né? Gasolina veio sem nada”. “Outra hora eu encho pra você. Vamos ficar assim? Eu vejo que os outros olham pra mim, dão risada, acho que tá todo mundo sabendo”. “Tá todo mundo sabendo, eu contei, você sumiu com meu carro três dias”. Aí passou, nunca deu gasolina, nada.
Boteco – Valeu, Zé Márcio!