terça-feira, julho 16, 2024
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Ana Laura: de educanda do ICA a profissional do circo

Trabalho. A derivação do verbo trabalhar vem do latim vulgar tripaliāre, interpretado como torturar. Sabemos que muita gente reclama de seu trabalho e o trata como uma tortura, mas a etimologia, ou seja, a origem da palavra, nem sempre se mantém fiel ao longo do tempo. Afinal, que nunca ouviu que “o trabalho dignifica o homem?”.

Labutar é sinônimo de honra para o humano contemporâneo. Só que ainda buscando referências originais quanto ao termo que, no próximo dia 1º de Maio, será celebrado por meio dos trabalhadores, voltemos à antiga Grécia. Na “polis”, o trabalho manual e de pequenos comerciantes eram especialmente depreciados, porém a atividade artística gozava de prestígio e reconhecimento. Hoje em dia o comércio, entre outras áreas, são valorizadas. Que bom, mais do que justo! Mas a área artística, nem sempre é. E deveria.

Sociedade
Trabalhar com arte não é das tarefas mais simples. Tirar o sustento do talento de cantar, dançar ou interpretar é raro caso. E quando esta oportunidade é agarrada por quem, desde criança, lutou para estar neste meio? Entre os milhares de trabalhadores que mereciam espaço aqui neste especial, hoje falamos de Ana Laura Guimarães Bastos da Silva.

Ela tem 21 anos, é cria da Zona Leste e eterna educanda do ICA. Está bem, se você não conhece, é o Instituto de Incentivo à Criança e ao Adolescente, uma instituição de 25 anos que oferta a crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade chances que só os abastados têm: conviver com a arte desde pequeninos. “É a arte como ferramenta principal para atrair e cativar jovens, crianças e adolescentes que se encontram em riscos vulneráveis”, resume Ana Laura.

Ao longo da sua adolescência, com seus pais ausentes, ficava sozinha em casa, sem ter atividades que desenvolvesse a criatividade, o raciocínio, a coordenação motora, etc. Sempre ouvia falar do ICA. Estuda na Zona Leste, perto de casa, mas não conseguia imaginar os pais indo até o CRAS (Centro de Referência da Assistência Social) da região para matriculá-la.

“Eu, como uma menina muito determinada, esperta e pró-ativa, numa manhã, resolvi ir até o CRAS solicitar uma vaga na maior cara de pau. Fui uma, duas, três e nada”. Aí, na quarta vez, conseguiu falar com a assistente social. Ela ouviu da profissional. “Vou resolver a sua vida”. Proféticas palavras…

Sonho vívido
Conseguiu convencer a mãe a inseri-la no projeto. A irmã foi no embalo. As atividades eram realizadas no turno contrário ao da escola. Teve seus primeiros contatos com a arte. Circo, dança, música, teatro. “Parecia surreal estar ali. Aprender, me desenvolver, me desafiar. Me lembro que, em 2010, participei de um projeto dentro da escola chamado CRIARTE ( nessa época o ICA realizava a descentralização de suas atividades em lonas de circo em territórios da cidade de Mogi Mirim de forma itinerante). Ali nasceu essa aptidão e afeto pela arte e pelo encanto do universo circense.

Ana Laura cresceu. Se destacou. E teve a vaga transportada do polo descentralizado para a sede principal, mais perto do centro da cidade. Já adolescente, teve a oportunidade de realizar cursos para o mundo do trabalho: auxiliar administrativo foi um deles. Cursos fornecidos para potencializar o adolescente na soma de ser um bom cidadão, com direitos e responsabilidades. Mas o casamento entre arte e educação era a exposição de seu DNA profissional.

Participando de um grupo de especialização, o Trupe ICA, voltado para apresentações artísticas, esteve no palco. “Foi uma das melhores fases da minha vida. Talvez em palavras eu não conseguiria descrever a emoção que era estar ali, demonstrando um pouco do que se é praticado nas oficinas de circo”.

É o fogo da paixão. E quando ele se une ao profissionalismo, nada o apaga. Como não some da memória de Ana Laura os espetáculos para centenas de pessoas, como ‘As desventuras de Maria Pela Noite e pelo Dia’, uma história que ressaltou as origens do nordeste e no qual ela atuou como palhaça.

A educanda se permitiu mergulhar nesse universo artístico, que transforma um cenário de tristeza em alegria, de medo para coragem, de insegurança para confiança, de frustrações para realizações. “É isso que a arte é capaz de causar nos jovens e adolescentes, que se permitam a se envolver num espaço que acolhe e oferece novas perspectivas de vida”. Como tudo isso incendiando seu coração, a vida adulta parecia não ter outro caminho.

Um palco acadêmico e um novo picadeiro

Em um mundo cheio de privilégios para poucos, oportunidade é artigo raro. E Ana Laura, de origem igual à da maioria dos que largam atrás na corrida da vida, abraçou as chances que teve. Se tornou monitora e estagiária. Estagiava pois cursava educação física. E por quê este curso? “Justamente para entender a capacidade corporal, as dimensões dos movimentos, as articulações, etc. No fundo eu acreditava que esse curso poderia virar a ‘chavinha’ e, por meio disso, conseguiria almejar outras oportunidades dentro da vertente em que eu mais me identifiquei, o circo. Afinal, eu sentia que já sabia aonde eu queria chegar”.

Iniciou a graduação em 2019 e vai concluir no final de 2023. Para ela, ser educadora é formar e contribuir para o carácter do ser humano é entender que somos ferramentas para protagonistas de suas próprias vidas. “É fácil? Não! Conciliar a vida universitária, o trabalho e toda essas responsabilidades foi um dos gigantes internos que eu tive que enfrentar, justamente pelo fato de que tudo era muito simples antes.

Ser cuidada, ser ensinada e simplesmente vestir o figurino e entrar em cena. Ao virar educadora, foi montar a cena e colocar asas para a criança, o jovem e adolescente. É você que ensina. Aprende e se responsabiliza pelos valores que aquele indivíduo deve levar para a vida”.

Só que, ao focar nessa vida de adulto, foi nítida a sua ausência no palco. Atualmente, se entende muito feliz como educadora e se vê no picadeiro de outra forma. “Através dos próprios educandos eu me vejo ali. Crianças talentosas, corajosas, jovens decididos, determinados, adolescentes empoderados e ousados. Sim, essa sou eu”.

Com toda esta trajetória, ela reconhece o quanto o ICA foi importante em sua formação acadêmica, com a soma de valores e princípios que carregará eternamente em sua vida. “Me mostrou, através de pequenas sementinhas, que é preciso acreditar, se permitir e se desafiar. Depois de vivenciar tanto no instituto, está agora como educadora de circo no projeto Ubirajara Ramos. Um novo ciclo, uma nova etapa e um novo desafio.

Mas não acaba aqui. O trabalho artístico é sem fim. E um recado aos educandos de uma eterna educanda pode, sim, ser um bilhete premiado. “Sonhe, acredite em vocês. Fácil não será, mas o segredo está em persistir e enfrentar os obstáculos que a vida pode oferecer. E você que sonha em ser educador, invista no seu potencial, realize cursos, abrace as oportunidades, acredite naquilo que te move. Faça acontecer e siga seus objetivos sem olhar para os julgamentos e para trás”.

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